8/18/2006

Miles Davis' Funeral

As pessoas tem uma idéia deturpada do que resiste realmente ao tempo. É como se encher de pompa pra falar latim: nada a ver, esse latim que sobrou é o falado pelos garis de Roma.

O mesmo com a internet. Se alguma civilização futura encontrar, um dia, os nossos servidores lá, abandonados num canto, não vão descobrir nada além das senhas pra destravar "prince of persia".

7/19/2006

E viva Gil!

Eu gosto de pessoas que têm visões políticas inusitadas:

Eu sou russo-niilista.

O Emi é radical de centro.

O Trielli é anarquista neoliberal.

A Gabi gosta de teatro.

7/08/2006

Porque continuo fumando

Sabe o que é o Câncer pra mim? A maior e mais bem sucedida invenção da indústria farmacêutica. As pessoas somatizam a mentira, e movimentam um negócio de milhões.

Sabe o que é impotência pra mim? Incompetência de mulher. Brocha, todo mundo é, o tempo todo. A ereção é o estado de exceção que ELAS têm que alcançar. E nem é tão difícil, poxa.

Agora, saindo do assunto, sabe o que é AIDS pra mim? Um negócio perigoso pra caralho, não dê ouvidos ao papa não.

7/06/2006

Fim do Terceiro Ato

Entram o juiz, o júri e o ditador capturado. A platéia do julgamento aguarda a decisão anciosamente com burburinhos.

JUIZ: Ordem, ordem na casa. O Júri já tem o veredicto?

DITADOR (levanta-se): Antes, meretíssimo, eu gostaria de me utilizar da palavra.

JUIZ: Negado. Sente-se, e aguarde a sentença do júri.

DITADOR: Não foi um pedido, meretíssimo.

Os últimos soldados leais ao ditador se levantam na platéia e tomam a platéia de refém. Os guardas to tribunal também estão ao lado do ditador. Um deles retira as algemas do réu.

JUIZ: Mas, o quê?

DITADOR (massageando os pulsos): As TVS. Quero as câmeras ligadas, continuem com a transmissão ao vivo. Se, em algum momento, eu for avisado de que os acontecimentos nesta corte não estão em rede nacional, não vai sobrar ninguém para contar a história.

Silêncio.

DITADOR: Agora, meretíssimo, eu gostaria de me utilizar da palavra.

JUIZ (contrariado): À vontade.

DITADOR (passa as mãos pelo cabelo e aponta o chão à sua frente): Fica de quatro. Aqui.

JUIZ: Como?

DITADOR: Eu disse: levante-se, venha até aqui e fique de quatro. Agora.

Um dos guardas puxa o juiz pelo braço e o lança no chão, de quatro, em frente ao ditador, que se senta no dorso do jurista. Acende um cigarro.

DITADOR (discursa para as câmeras): Há pouco mais de quinhentos anos, chegaram à nossa terra os navegadores lusos. Aqui, fundaram uma nação baseada na exploração dos recursos naturais, do povo nativo, dos escravos negros. Eram homens bravos, que tinham certeza absoluta de que existem homens de primeira e de terceira classe.

É o futuro desse exaurido modelo de sub-nação que está em jogo aqui. Todos nossos irmãos subdesenvolvidos vão se lembrar para sempre dos acontecimentos nesta sala como a projeção inexorável do seu próprio futuro.

Culpado, sim, de todas as acusações. Mas não é esta lei que deve me julgar. Existem, sim, homens de primeira e de terceira classe, e não me enquadro no segundo grupo, para o qual existe a constituição. Não me enquadro também no primeiro grupo, para o qual ela também existe, mas não tanto.

(dá um trago no cigarro)

Eu sou o verbo. Estou além. Se esmaguei a oposição sistematicamente, se nunca tive piedade com a dissidência e, principalmente, jamais poupei meus camaradas mais próximos do exílio e da totura, foi porque eu, e apenas eu, sou o caminho luminoso das mentes incultas.

Os braços do juiz fraquejam sob o peso do ditador, mas ele logo retoma a posição.

DITADOR: Só mais um pouco, "baluarte" da justiça, já termino.

(dá um tapinha no traseiro do juiz)

Mantendo-me fiel à minha convicção, à minha certeza absoluta sobre todas as coisas, declaro que o júri não é mais necessário neste processo. Já tenho eu a sentença pronta.

Levanta-se das costas do juiz, que desaba em cansaço. Caminha até um dos soldados, dá-lhe um tapinha nas costas e pega a arma na mão.

DITADOR: Pela infidelidade deste povo contra si mesma, por sua incapacidade de rebelião massiva, por ter sucumbido à tentação de deixar-se guiar, por um lado e por outro, eu sentencio, agora e para sempre, o castigo desta nação impura. Que, a partir de hoje, nunca mais deixe de existir um governo no planalto!

Aponta a arma contra a têmpora esquerda, e puxa o gatilho. O corpo morto cai no chão, e o mundo termina novamente.

(baixam-se as cortinas)

* inspiração by Millôr Fernandes.

6/30/2006

Meia-noite

De tempos em tempos, pecebo que tenho 8, 9, 10 janelas do internet explorer abertas ao mesmo tempo. Em cinco delas, a página inicial do orkut. Nas outras, artigos repetidos do Wikipedia, e, eventualmente, o metaphorical.net.

Os orkuts são o resto do meu novo hobbie predileto: xeretar perfis do orkut. Olho mesmo, de todo mundo. Se olha de volta, eu xereto mais uma vez. Se corresponder mais uma vez, mando até scrap. No fim sempre volto pra minha própria página, e ela fica lá.

Aí eu resolvo abrir o Wikipedia. Eu tomo essa decisão umas 5 vezes por hora. Toda vez eu abro uma janela nova do Explorer. Eu também costumo receber telefonemas perturbadores às 23h da sexta-feira, quando estou em casa. Sim, em casa. Mas os meus sábados são super legais. Juro.

De tempos em tempos, eu fico nostálgico e decido escutar algum som legal dos anos 90, sabe? Malfunkshun (80, ok, mas tem o espírito, o espírito!), Jane's Addiction, Pearl Jam, Alice in Chains, Faith no More, Temple of the Dog, et caetera, et caetera.

Tem uma coisa "+" nessa época. Sei lá, o último boom de vendagem de discos, aqueles shows insanos, com gente insana no palco e na platéia. Toda aquela juventude estranha que cresceu e fez faculdade de administração, economia e engenharia porque nunca prestou atenção em uma palavra do que ouviu.

De tempos em tempos, de 4 em 4 anos, pra ser mais exato, tem Copa do Mundo. Aí você vê que a dona da casa comprou o espetáculo, já escreveu o final, e tem hipocrisia na capa de todos os jornais - com futebol, com política, e o caralho a quatro.

Isso se chama "meia-noite", conceito de um escritor tcheco que é foda.

1/12/2006

Long slow goodbye

Alguns podem dizer que a linguagem surgiu como um instrumento de sobrevivência. Humanos fracos em grupo contra a amedrontadora natureza ganham um reforço. Outros podem dizer que foi um jeito de tentar descobrir se o outro é mesmo da mesma raça que a gente. "Solidão. É algo assim, não ter mais ninguém. Mesmo aqui, agora, no meio dessa multidão. Você sabe o que é isso?", "Sim, sei. Somos dois", "Somos".

Pois pra mim é mais uma maneira de fugir daquele estado primitivo de andar pelado e comer frutinhas. Um dos jeitos de ser superior. Tudo é. Roupas melhores que pelos, toneladas de concreto melhores que árvores, cordas distorcidas melhores que assobios e, afinal, palavras melhores que grunhidos (mais do que suficientes na maioria das vezes).

É ridículo, mas a caminhada humana é isso. Bilhões de pessoas em uma eterna fuga do grande peixe interior. O grande atrasado. O involuído. Eu não me excluo disso, por isso esse último post da história deste blog. Rituais de sepultamento são melhores que decomposição no mato.

Cabeça de camarão é você.

12/09/2005

Ideais

Não xiste intolerânia cultural no balcão de uma loja. O branco atende o negro, o roqueiro compra do pagodeiro, o corinthiano negocia com o palmeirense, o nerd troca cumprimentos cordiais com o baladeiro e a moça que não depila as axilas conversa com o fã da Luana Piovani. (Essa última faz sentido até. Aposto que, secretamente, todas as feministas também são.)

Isso porque há interesses de ambos os lados. Um quer uma determinada mercadoria e o outro quer manter o emprego.

Então é mais ou menos assim que funciona uma ditadura do partido comunista. Todo mundo é obrigado a ter o emprego de ser comunista o tempo todo: ser cordial, dividir tudo e dar glórias ao estado (de bico fechado). Sob a pena de ser despedido, o que significa férias forçadas e sem volta em algum canto da Sibéria/Manchúria/Guantánamo/Floresta do Congo.

Se você pensar bem, até que funciona.