Fim do Terceiro Ato
Entram o juiz, o júri e o ditador capturado. A platéia do julgamento aguarda a decisão anciosamente com burburinhos.
JUIZ: Ordem, ordem na casa. O Júri já tem o veredicto?
DITADOR (levanta-se): Antes, meretíssimo, eu gostaria de me utilizar da palavra.
JUIZ: Negado. Sente-se, e aguarde a sentença do júri.
DITADOR: Não foi um pedido, meretíssimo.
Os últimos soldados leais ao ditador se levantam na platéia e tomam a platéia de refém. Os guardas to tribunal também estão ao lado do ditador. Um deles retira as algemas do réu.
JUIZ: Mas, o quê?
DITADOR (massageando os pulsos): As TVS. Quero as câmeras ligadas, continuem com a transmissão ao vivo. Se, em algum momento, eu for avisado de que os acontecimentos nesta corte não estão em rede nacional, não vai sobrar ninguém para contar a história.
Silêncio.
DITADOR: Agora, meretíssimo, eu gostaria de me utilizar da palavra.
JUIZ (contrariado): À vontade.
DITADOR (passa as mãos pelo cabelo e aponta o chão à sua frente): Fica de quatro. Aqui.
JUIZ: Como?
DITADOR: Eu disse: levante-se, venha até aqui e fique de quatro. Agora.
Um dos guardas puxa o juiz pelo braço e o lança no chão, de quatro, em frente ao ditador, que se senta no dorso do jurista. Acende um cigarro.
DITADOR (discursa para as câmeras): Há pouco mais de quinhentos anos, chegaram à nossa terra os navegadores lusos. Aqui, fundaram uma nação baseada na exploração dos recursos naturais, do povo nativo, dos escravos negros. Eram homens bravos, que tinham certeza absoluta de que existem homens de primeira e de terceira classe.
É o futuro desse exaurido modelo de sub-nação que está em jogo aqui. Todos nossos irmãos subdesenvolvidos vão se lembrar para sempre dos acontecimentos nesta sala como a projeção inexorável do seu próprio futuro.
Culpado, sim, de todas as acusações. Mas não é esta lei que deve me julgar. Existem, sim, homens de primeira e de terceira classe, e não me enquadro no segundo grupo, para o qual existe a constituição. Não me enquadro também no primeiro grupo, para o qual ela também existe, mas não tanto.
(dá um trago no cigarro)
Eu sou o verbo. Estou além. Se esmaguei a oposição sistematicamente, se nunca tive piedade com a dissidência e, principalmente, jamais poupei meus camaradas mais próximos do exílio e da totura, foi porque eu, e apenas eu, sou o caminho luminoso das mentes incultas.
Os braços do juiz fraquejam sob o peso do ditador, mas ele logo retoma a posição.
DITADOR: Só mais um pouco, "baluarte" da justiça, já termino.
(dá um tapinha no traseiro do juiz)
Mantendo-me fiel à minha convicção, à minha certeza absoluta sobre todas as coisas, declaro que o júri não é mais necessário neste processo. Já tenho eu a sentença pronta.
Levanta-se das costas do juiz, que desaba em cansaço. Caminha até um dos soldados, dá-lhe um tapinha nas costas e pega a arma na mão.
DITADOR: Pela infidelidade deste povo contra si mesma, por sua incapacidade de rebelião massiva, por ter sucumbido à tentação de deixar-se guiar, por um lado e por outro, eu sentencio, agora e para sempre, o castigo desta nação impura. Que, a partir de hoje, nunca mais deixe de existir um governo no planalto!
Aponta a arma contra a têmpora esquerda, e puxa o gatilho. O corpo morto cai no chão, e o mundo termina novamente.
(baixam-se as cortinas)
* inspiração by Millôr Fernandes.
JUIZ: Ordem, ordem na casa. O Júri já tem o veredicto?
DITADOR (levanta-se): Antes, meretíssimo, eu gostaria de me utilizar da palavra.
JUIZ: Negado. Sente-se, e aguarde a sentença do júri.
DITADOR: Não foi um pedido, meretíssimo.
Os últimos soldados leais ao ditador se levantam na platéia e tomam a platéia de refém. Os guardas to tribunal também estão ao lado do ditador. Um deles retira as algemas do réu.
JUIZ: Mas, o quê?
DITADOR (massageando os pulsos): As TVS. Quero as câmeras ligadas, continuem com a transmissão ao vivo. Se, em algum momento, eu for avisado de que os acontecimentos nesta corte não estão em rede nacional, não vai sobrar ninguém para contar a história.
Silêncio.
DITADOR: Agora, meretíssimo, eu gostaria de me utilizar da palavra.
JUIZ (contrariado): À vontade.
DITADOR (passa as mãos pelo cabelo e aponta o chão à sua frente): Fica de quatro. Aqui.
JUIZ: Como?
DITADOR: Eu disse: levante-se, venha até aqui e fique de quatro. Agora.
Um dos guardas puxa o juiz pelo braço e o lança no chão, de quatro, em frente ao ditador, que se senta no dorso do jurista. Acende um cigarro.
DITADOR (discursa para as câmeras): Há pouco mais de quinhentos anos, chegaram à nossa terra os navegadores lusos. Aqui, fundaram uma nação baseada na exploração dos recursos naturais, do povo nativo, dos escravos negros. Eram homens bravos, que tinham certeza absoluta de que existem homens de primeira e de terceira classe.
É o futuro desse exaurido modelo de sub-nação que está em jogo aqui. Todos nossos irmãos subdesenvolvidos vão se lembrar para sempre dos acontecimentos nesta sala como a projeção inexorável do seu próprio futuro.
Culpado, sim, de todas as acusações. Mas não é esta lei que deve me julgar. Existem, sim, homens de primeira e de terceira classe, e não me enquadro no segundo grupo, para o qual existe a constituição. Não me enquadro também no primeiro grupo, para o qual ela também existe, mas não tanto.
(dá um trago no cigarro)
Eu sou o verbo. Estou além. Se esmaguei a oposição sistematicamente, se nunca tive piedade com a dissidência e, principalmente, jamais poupei meus camaradas mais próximos do exílio e da totura, foi porque eu, e apenas eu, sou o caminho luminoso das mentes incultas.
Os braços do juiz fraquejam sob o peso do ditador, mas ele logo retoma a posição.
DITADOR: Só mais um pouco, "baluarte" da justiça, já termino.
(dá um tapinha no traseiro do juiz)
Mantendo-me fiel à minha convicção, à minha certeza absoluta sobre todas as coisas, declaro que o júri não é mais necessário neste processo. Já tenho eu a sentença pronta.
Levanta-se das costas do juiz, que desaba em cansaço. Caminha até um dos soldados, dá-lhe um tapinha nas costas e pega a arma na mão.
DITADOR: Pela infidelidade deste povo contra si mesma, por sua incapacidade de rebelião massiva, por ter sucumbido à tentação de deixar-se guiar, por um lado e por outro, eu sentencio, agora e para sempre, o castigo desta nação impura. Que, a partir de hoje, nunca mais deixe de existir um governo no planalto!
Aponta a arma contra a têmpora esquerda, e puxa o gatilho. O corpo morto cai no chão, e o mundo termina novamente.
(baixam-se as cortinas)
* inspiração by Millôr Fernandes.


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